28/01/2010
APRENDENDO COM OS ERROS
Acknowledgements
Developed by the Vincristine Safety Team within the World Alliance for Patient Safety with support and contributions from: Brendan Flannigan, Rhona Flynn and team, James Lp, Eugenia Lee and Rona Patey.
World Alliance for Patient Safety Secretariat (All teams and members listed in alphabetical order following the team responsible for the publication)
Vincristine Safety: Felix Greaves, Helen Hughes, Claire Lemer, Douglas Noble, Kristine Stave, Helen Woodward
Depois que um erro prejudicou um paciente, a pergunta mais freqüente é: Como é que isso aconteceu? É sempre tentador e simples atribuir a culpa apenas a um causa ou uma pessoa.
Os objetivos principais da aprendizagem com os erros são:
1. Introduzir a compreensão do por que ocorrem erros;
2. Introduzir a compreensão de que ações podem e devem ser tomadas para melhorar a segurança do paciente;
3. Reforçar a ênfase na segurança do paciente nas Instituições Hospitalares;
4. Identificar as políticas e procedimentos locais para melhorar a segurança dos cuidados prestados aos doentes.
Fatores que contribuem para o erro:
Identificar fatores comuns que contribuem para o erro, é fundamental para o desenvolvimento de soluções viáveis que visam tornar os cuidados mais seguros. Estes fatores devem ter em conta falhas fundamentais, de projeto ou de eventos pontuais. Infelizmente, as respostas das Instituições na identificação e resolução destes fatores têm acontecido de maneira lenta, resultando em pequenas melhorias nos cuidados de saúde. Para que possamos reduzir de verdade estes erros, temos que focar obrigatoriamente:
1. Educação para a segurança do paciente;
2. Comunicação eficaz;
3. Envolvimento do paciente;
4. Análise de causa raiz.
1. Educação para a segurança do paciente
Dentro das outras indústrias de alto risco, rigorosos procedimentos de segurança e centenas de horas de aprendizado são postos em prática para evitar danos à vida humana. Na aviação, os procedimentos de segurança estão arraigados e são avaliados durante o treinamento de vôo e ao longo da vida de um piloto, por meio de avaliações periódicas. Mas o mesmo não acontece com os cuidados de saúde. O desenvolvimento e implantação dos procedimentos e processos de segurança do paciente como um tema central curricular, contribuirá para fornecer um enquadramento para a prática segura durante a vida profissional.
Na Universidade Escocesa de Aberdeen, um módulo de segurança do paciente, foi integrado nos últimos estágios da escola médica no currículo de graduação. Este módulo ensina os alunos, entre outras coisas, a: reconhecer as falibilidades humanas; reconhecer os erros; entender a importância da documentação, registros e os relatórios de erros. Além de aprender com a experiência de outras áreas industriais. Educação e validação da competência são componentes críticos na busca de melhorar a segurança do paciente. Os colaboradores devem ter competências mínimas para realizar cuidados seguros, e a organização deve ter mecanismos para verificar isso. A educação médica tem tradicionalmente seguido a mesma lógica. Os alunos são muitas vezes incentivados a aprender com base no princípio de ver uma vez, fazer uma vez e ensinar uma vez. Este não é o método adequado, o mesmo não prioriza as bases das competências individuais. Mal treinados os profissionais de saúde são um dos fatores que contribui de forma importante para o aumento dos eventos sentinelas. Não há segurança nas práticas quando temos limitações de competência.
2. Comunicação
Uma comunicação eficaz é fundamental para a segurança do paciente. Uma revisão das análises de causa raiz sugere que, em mais de 60% de erros, a comunicação foi um importante fator causal. A comunicação eficaz é também crucial para a gestão de um incidente, depois que o mesmo ocorreu. A comunicação na definição de cuidados de saúde pode ser dividida em dois tipos: Entre os profissionais da saúde; Entre os profissionais o paciente e seus familiares Cada um dos tipos tem diferentes elementos que podem contribuir para erros no cuidado. A comunicação entre pacientes e profissionais é complexa e está começando a ser entendida. Parte da complexidade deve-se as diferentes expectativas entre os atores. Cinqüenta anos atrás, os pacientes foram habituados a conviver com o comportamento pragmático dos profissionais de saúde. Hoje os pacientes esperam ações muito mais objetivas destes profissionais, que os mesmos os oriente através do complexo processo de tratamento, compartilhando as responsabilidades. É importante entender que a comunicação deve estar alinhada às necessidades de cada paciente. O tipo de modelo de comunicação depende muito de cada situação específica. Durante a relação entre o paciente /profissional de saúde, três formas principais de comunicação podem ser utilizadas: A forma não-verbal; A forma verbal. A forma escrita A menos estudada é a comunicação não-verbal. O paciente por várias vezes entende como pistas do seu tratamento a linguagem corporal dos profissionais. Estudos demonstram que o importante nesta comunicação é como os pacientes percebem esta transferência de informações. Na comunicação verbal temos como fator importante a capacidade dos pacientes e dos profissionais se comunicarem na mesma língua. Temos a certeza que a interpretação dos pacientes impacta seriamente na relação custo beneficio do tratamento. Mesmo quando os dois falam a mesma língua, aparecem problemas de comunicação, que muitas vezes são resultantes da falta de formação dos profissionais em comunicação. Os profissionais de saúde também tendem a controlar o fluxo de comunicação com os pacientes. Por exemplo, eles muitas vezes perguntam de forma fechada (resultando em uma resposta esperada de 'sim' ou 'não'), este tipo de comunicação impede o paciente de comunicar-se livremente. Outra dificuldade que nós profissionais de saúde temos é a comunicação dos riscos sem medo. O método final que pode ser usado para comunicação entre pacientes e os profissionais é a informação escrita. Esta também tem armadilhas. Muitos pacientes manifestam dificuldades de compreensão nas informações escritas.
Estudos demonstram que a capacidade de compreender este tipo de material, também conhecido como funcional “Health Literacy (FHL)”, não está correlacionada às formas de alfabetização.
2.1 Comunicação entre os profissionais
Pesquisas identificaram que a comunicação entre os profissionais desempenha importante papel no desenvolvimento de erros, tais como: registros incompletos, letra ilegível, instruções não claras,... Estes problemas não são exclusivos aos cuidados de saúde e, portanto podemos também aprender com exemplos de outros segmentos. A “Crew Resource Management” é uma técnica emprestada da indústria de aviação e desenhada especificamente para tentar quebrar as barreiras hierárquicas nas relações. Através de exercícios de “team-building”, os profissionais são habilitados a falar sem respeitar suas formações e graus hierárquicos. Nas experiências em hospitais, foi possível identificar grande redução no número de erros, ganhos significativos na eficiência do tratamento e nos custos com esta prática.
2.2 Comunicação e gestão de incidentes
Quando ocorrer um incidente, a notificação é fundamental para a gestão dos eventos sentinelas. Explicar ao paciente e sua família são moralmente necessários, embora extremamente difícil. Entender o que aconteceu é um direito do paciente. Os pacientes e seus familiares de um modo geral ficam mais confortados em saber que as lições aprendidas serão comunicadas de forma ampla para impedir sua repetição.
A comunicação entre a equipe de cuidados de saúde depois que o erro aconteceu também é de vital importância. Profissionais de saúde podem ser pessoalmente afetados quando do seu envolvimento no cuidado que resultou em erro.
Conclusão
Comunicação desempenha um papel significativo em todos os aspectos do erro. Para que evitemos erros, temos que melhorar a qualidade de comunicação entre os profissionais de saúde e entre os pacientes e profissionais. A boa comunicação é imprescindível quando se trata com erros.
3. Envolvimento do Paciente
Para maioria dos pacientes, os riscos na assistência estão longe de seus pensamentos quando consultam um médico. Pacientes esperam sempre que os profissionais da saúde irão proporcionar-lhes um cuidado seguro e adequado. Estes cuidados devem ser um ato de parceria e confiança. Envolver o pacientes no processo de seu cuidado é uma garantia de assistência segura. Muitas organizações de saúde estão ativamente empenhadas em envolver os pacientes no tratamento como um incentivo para a redução de erros
e na compreensão nas causas dos danos. Os pacientes têm uma perspectiva singular; na maioria das vezes são os únicos a ver todo o cuidado e ter uma visão da forma como tudo acontece. Informá-los sempre sobre seu diagnóstico, suas condições e opções de tratamento é uma das principais maneiras deste envolvimento. Os pacientes e seus familiares precisam ser incentivados a se preocuparem com a segurança dos cuidados. Ter um parente ou amigo presente pode apoiar os mesmos na compreensão das decisões e advogar pela segurança do paciente quando este se encontra ansioso ou confuso.
3.1 Barreiras à Participação do Paciente
Os doentes são muitas vezes relutantes em participar porque não se sentem autorizados a fazê-lo, muitas vezes desconhecem os riscos dos cuidados de saúde Erros podem acontecer nas instituições de saúde e os pacientes precisam saber que sua participação pode ajudar na redução dos mesmos. No entanto, a maneira mais eficaz de educar os pacientes ainda precisa ser determinada. Provavelmente exigirá uma combinação de informações verbais e escritas, lembretes e incentivos. Embora saibamos que a eficácia da participação do paciente ainda exige mais investigação. Mas com certeza os profissionais de saúde necessitam mudar seus hábitos para incentivar o envolvimento do paciente. Estes são relutantes em abandonar o modelo paternalista de cuidado a saúde. Esta relutância é ainda mais evidente em relação a pacientes de menor nível sócio-econômico, que às vezes são percebidos como sendo incapazes de contribuir para o seu próprio cuidado. Outro fator a ser considerado é acreditar que explicar tudo ao paciente seria demorado demais. Os pacientes podem sentir uma sensação de deslealdade para com equipe profissional ou ter medo das conseqüências reais ou percebidas quando seus questionamentos não são respondidos, tal comportamento estimula o confronto, potencialmente prejudicial à relação de confiança. Isso muitas vezes leva a litígio, em vez de oferecer acordo entre as partes. Pacientes e familiares relatam que quando as coisas vão mal, os profissionais freqüentemente ficam em silêncio e assumem a negação e muitas vezes ficam hostis.
Nestas circunstâncias, os pacientes podem rapidamente perder a confiança em seus cuidadores.
Conclusão
Os pacientes estão ficando cada vez mais comprometidos com as instituições de saúde. Promover uma relação aberta e honesta entre os profissionais e o paciente criará espaço para o diálogo e mecanismos eficazes para construção de um sistema mais seguro. Os profissionais devem adotar uma relação mais equilibrada com os pacientes. Cada profissional individual, e as instituições devem apoiar e incentivar a sua participação.
4. Análise de Causa Raiz
Quando o erro ocorre, o foco habitual é culpar um indivíduo. Nestes casos a Instituição perde a oportunidade de aprender a fazer o seu ambiente mais seguro.
O erro humano logicamente não pode ser eliminado, mas os sistemas devem ser concebidos para ajudar as pessoas a evitar erros e minimizar o efeito dos mesmos. Análise de causa raiz é a análise sistemática das causas potenciais que levaram ao evento. Deve ser aplicada em casos de erros e eventos sentinelas. Existem muitas ferramentas validadas disponíveis para uso em análise de causa raiz. As Instituições de Saúde podem usar esta análise abaixo, tanto para explicar como aconteceu, bem como estabelecer os mecanismos para impedir que aconteça novamente.
5. Questões Finais
Para finalizar, as questões apresentadas a seguir ajudarão a reflexão na prestação de cuidados seguros dos profissionais de saúde
5.A. Protocolos Clínicos
1. Os protocolos foram definidos para tornar as práticas da prestação de cuidados mais segura? 2. Existem resistências que impedem a implantação dos protocolos?
3. Existe uma cultura de desprezo ou resistência pelos protocolos na sua organização?
5.B. Garantia do desenvolvimento profissional
1. Seus colegas trabalham atualizados com os conceitos técnicos profissionais vigentes?
2. Sua Instituição tem uma maneira formal de avaliar a competência de seus colegas?
3. Você sabe ou sua Instituição sinaliza, o que deve ser feito se você tiver preocupações sobre a competência dos seus colegas?
4. Você sabe se o resultado das práticas realizadas na sua unidade tem interferido nos resultados Institucionais?
5. C. Comunicação
1. Nas práticas diárias em sua unidade é efetiva a comunicação multidisciplinar?
2. É reconhecido o valor pessoal, e é clara a responsabilidade de cada profissional no desempenho de suas atividades em sua unidade ou Instituição?
3. Existe hierarquia nos canais de comunicação institucional?
4. Você pode abordar qualquer integrante da equipe para investigar sobre a legítima segurança de uma situação?
5. Você trabalha bem como sua equipe?
5. D. Uso seguro de Medicamentos
1. Os Registros médicos são de fácil acesso, mantidos regularmente atualizados e legíveis?
2. Existem políticas para garantir a coerência de compra de drogas e mecanismos de verificação na detecção de erros potenciais, tais como nomes e sons parecidos entre medicamentos?
3. Há sistemas para garantir que somente aqueles com formação adequada estarão envolvidos na utilização de medicamentos de alto risco?
5. E. Envolvimento do paciente
1. O que é feito em sua organização para garantir que os pacientes sejam ativos parceiros em seu próprio tratamento? Quais ações poderiam ser mais ativas para garantir este envolvimento? Quais os meios que você entende que poderiam contribuir para este fortalecimento?
5. F. Cultura da Segurança
1. Quão importante você acha que está a segurança do paciente
na sua prática clínica?
2. Você acredita que todos na sua equipe pensam que a segurança do paciente é importante?
3. Você acredita que é capaz de identificar fatores de risco no seu local de trabalho para garantir um desempenho mais seguro para o paciente?
4. É fácil para você sugerir mudanças em seu local de trabalho?
5. Quantas foram as mudanças sugeridas por você nos últimos três meses?
6. Quais fatores causam maiores dificuldade quando da proposta de uma mudança?
7. Qual destes fatores você acredita que mais impacta na segurança do paciente: comunicação, engajamento do paciente ou a cultura organizacional?
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