O Ambiente Psicologicamente Seguro e o Silêncio dos Profissionais

A eminência na mídia de casos críticos de eventos envolvendo profissionais de saúde, como a reabertura do caso Ian Paterson, apesar de práticas bem estabelecidas e embasadas voltadas à qualidade do cuidado, trouxe a necessidade de rediscussão deste sistema. Este modelo mostra-se inefetivo, a medida em que a prática baseada em “camaradagem, confiança e hierarquia” ainda se estabelecem e tem espaço. O silêncio sob o aspecto da lealdade ainda é cumplice de práticas inseguras perpetuadas ao longo de anos.

O erro na prática assistencial tem sido discutido há décadas, e um dos grandes marcos foi a publicação “To err is human: building a safer health system”, no ano 2000. Neste momento, já se discutia a previsibilidade do erro e a existência de sistemas frágeis cujas barreiras precisam ser colocadas para a sua não ocorrência.

As preocupações com a segurança do paciente, juntamente com a crescente complexidade dos processos na prestação do cuidado exigem esforços organizacionais na detecção e prevenção de problemas desta natureza.

Garantir a qualidade do atendimento, principalmente para pacientes com múltiplas condições de saúde, implica na coordenação de decisões e tratamentos, somado ao fato de constantes pressões para a diminuição de custos sem sacrificar a qualidade assistencial.

Em alguns países, cujo valor da assistência à saúde é alvo frequente de pesquisa, o custo do erro chega a valores entre 17 e 29 bilhões de dólares, atingindo 44 mil a 98 mil pessoas ao ano.

Diante das evidências do erro, para indivíduos, sociedade, nos âmbitos social e econômico; e por outro lado a existência de amplos recursos em comunicação, como o uso de programas altamente tecnológicos ou mesmo do uso do prontuário eletrônico, questiona-se assim as relações de poder exercidas na prática profissional, fazendo com que profissionais se calem diante do erro. Na área da saúde, no topo da hierarquia, está a figura do médico, autoridade técnico-científica maior. A legitimidade desta autoridade está na dependência dos indivíduos com relação a estes conhecimentos, uma vez que a saúde tem um valor imensurável de importância para os indivíduos e sociedade.

A autoridade é uma habilidade que gera a confiança no outro e obediência voluntária. A confiança sobre a legitimidade de uma autoridade quando rompida dá lugar a violência para a manutenção da obediência. Há assim uma despersonalização dos cuidados em saúde, fragilização de vínculos, com a ausência da reflexão da prática, onde o saber técnico-científico deixa de ser valorizado. Esta é uma perda de valores éticos humanos além de perda da importância técnica no caráter das relações.

O fracasso técnico e prático favorece a violência pela transformação dos sujeitos em objetos. As falas ou comportamentos passam assim a ser grosseiras, desrespeitosas e discriminatórias. O medo ou a “falsa camaradagem”, desta forma, ganha seu espaço nas diferentes relações profissionais na prática em saúde e entre pares. Desta forma, os erros em saúde encontram parcialmente sua causa nestes padrões hierárquicos construídos ao longo de décadas, cuja autonomia médica abstém muitos profissionais da crítica à prática assistencial, bem como a identificação de condições perigosas e a disseminação de melhores práticas.

Como espelho destas condições, encontram-se os profissionais da “linha de frente”, convivendo com pressões, ansiedades e incertezas; condições altamente desfavoráveis para um ambiente de trabalho psicologicamente seguro que promova o aprendizado.

Por outro lado, quando estas relações de trabalho possuem como características o respeito, afeição, transparência e autonomia, traz alto nível de compreensão e tolerância; não com o objetivo de consentir o erro, mas trazer as discussões para um diálogo aberto que não consente com falhas, mas as compreende. É este um dos principais pontos e talvez um dos mais almejados no que se refere à segurança do paciente, depois de décadas de tentativas frustradas para a garantia de condições mínimas de trabalho.

Diz-se assim, em um clima psicologicamente seguro para o trabalho, que promove a redução de incidentes de segurança e produtividade. Entende-se assim a segurança psicológica como o ambiente propício à comportamentos interpessoais como falar ou pedir ajuda. Os  líderes contemporâneos permitem neste contexto a liberação de talentos individuais e coletivos, no qual funcionários sintam-se à vontade para contribuir com ideias, compartilhar informações e relatar erros. Assumir riscos não é uma ameaça aos profissionais à medida em que o trabalho é construído para segurança, em ambiente aberto para a aprendizagem

Desde a graduação destes profissionais, é necessária a rediscussão destes temas, estimulando a reflexão dos diversos valores envolvidos, na tentativa de introduzir os princípios essenciais para uma conduta profissional adequada, com ênfase no modelo da prática ética dada pelos mestres; ao mesmo tempo que retorna ao modelo hipocrático “primum non nocere” do ensino da medicina, baseada na problematização “crítica, democrática e desalienante”.         

Após anos de trabalho e ações voltadas à segurança do paciente, ainda estamos diante de um sistema frágil destinado à repetição cíclica de casos como o de Ian Paterson. O aprimoramento da adequada avaliação do ambiente de trabalho, e análise concreta das condições que favorecem os eventos em saúde e por fim os fatores humanos associados são pontos essenciais para a mudança do contexto atual de saúde. É preciso o desenvolvimento de técnicas de intervenção que propiciem ambientes de trabalho psicologicamente seguros para apoiar a aprendizagem de adultos.

A negligência, imperícia e imprudência acontecem diariamente, mas também precisam encontrar o seu fórum de discussão nas instituições. Bioética, Compliance e integridade nas práticas assistenciais são pontos ainda pouco discutidos que sinalizam para uma realidade vista sob o véu de protocolos e indicadores de segurança estabelecidos.

Busca-se assim o redesenho das práticas assistenciais, urgente e essencial, que denote a ausência de poderes ou hierarquias, além de permitir práticas que favoreçam a comunicação, não apenas o livre compartilhamento de saberes entre a equipe, mas também do erro, tornando sua abordagem ampla, compreensível e sem julgamentos.

A  eficácia das intervenções das lideranças para o fornecimento do apoio associado à segurança psicológica deve ser projetado como uma ação estratégica e desdobrado por todos os níveis hierárquicos institucionais. A segurança psicológica é promovida pelo reconhecimento explícito da natureza complexa e interdependente do trabalho em saúde, e visa atender as atuais demandas organizacionais para a detecção e prevenção de problemas relativos à segurança do paciente.

Publicado em 12.03.2020

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