Os Desafios dos Profissionais de Saúde

Impacto de uma epidemia no ambiente de trabalho de uma instituição.

“As doenças específicas sempre se repetem mais ou menos, a epidemia nunca inteiramente.” – Michel Foucault

O mundo está enfrentando uma crise de saúde pública que arruína a saúde mental de todos, ameaça vidas e prejudica economias. Conhecer os fatos é o primeiro passo no caminho para criar esperança de um futuro melhor.

As pandemias, especialmente aquelas onde não temos nenhum conhecimento a respeito, trazem como característica comum o pânico da população, seja pelo desconhecimento absoluto ou pela velocidade de propagação das informações. A maior parte dessas informações abordam teorias sem qualquer embasamento científico, e muitas são falsas, as chamadas “fake News”. Essa avalanche de informações conflituosas traz uma sobrecarga emocional a qualquer ser humano.

Quando analisamos o contexto histórico mundial, podemos constatar que grandes epidemias e pandemias fizeram mais vítimas fatais do que a 1ª e 2ª Guerras Mundiais. Em 1918 a pandemia de gripe, em pouco mais de dois anos, infectou mais de meio bilhão de pessoas. A cólera, em sua quarta pandemia (1863 -1875) foi catastrófica, chegando a registrar 360 mil mortes na Índia e 450 mil na Europa. Em 2009 houve a epidemia provocada pelo vírus H1N1, e agora enfrentamos a pandemia pela COVID-19, infecção causada pelo coronavírus.

No sistema de saúde, independente do país em questão, a resposta pode ser trágica, uma vez que a estrutura não está preparada e muitas vezes não consegue se adaptar em tempo para receber tal demanda de paciente ao mesmo tempo. Os profissionais envolvidos na assistência a saúde podem desenvolver quadros de ansiedade ao lado de seus colegas de profissão e familiares, o que acaba por expor a todos a um quadro de estresse, esgotamento, isolamento e depressão.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde- OMS, anteriores a pandemia pelo Covid-19, estima- se que os quadros de depressão e ansiedade custem à economia global algo em torno de US $ 1 trilhão por ano. Assim, nestes tempos difíceis, os líderes devem estar preparados para apoiar a saúde física e principalmente mental de seus colaboradores e equipe. É preciso abordar o problema, reconhecer seus desafios e implantar ações com o objetivo de ajudar a todos (exemplo: durante a disseminação do COVID-19 as equipes de trabalho na China e Itália se afastaram de seus familiares e relataram solidão, auto isolamento ou ansiedade).

No controle imediato da situação de crise o planejamento é fundamental para transformar desespero e pânico em um caos controlado, no qual planos de contingência e administração da incerteza devem conduzir a um programa racional para seu enfrentamento. As pandemias podem não apenas interromper uma organização, e comprometem a viabilidade a longo prazo de uma empresa, mas também prejudicam o fornecimento de funções críticas.

A análise de riscos do negócio deve orientar para a pratica de “Preparação para emergências e Desastres” e deve trazer recomendações e controles para um plano de contingência, com o intuito de reduzir impactos provocados pelo grande número de atendimentos, já que é de extrema importância que sejam adotadas medidas de resposta rápida. As organizações devem ter gestão eficiente, preocupação com seus colaboradores e direcionando e provendo recursos para as diversas estruturas hospitalares.

Durante a epidemia a doença não só modifica concretamente sua expressão epidemiológica e clínica. Ela também passa a ser percebida e enfrentada de forma diferente pela sociedade. Mesmo diante do complexo emaranhado de determinações sociais, as intervenções dos serviços de saúde devem prometer resultados. A tarefa e o papel da área de saúde, com seu arsenal tecnológico e suas estratégicas de universalização das ações, é primordial nesse contexto

O ambiente da prática profissional é afetado pela presença de características organizacionais no ambiente de trabalho que facilitam ou dificultam os profissionais a desenvolver sua prática, principalmente no que tange o trabalho colaborativo. As organizações hospitalares são sistemas complexos compostos por diversos departamentos e profissões, tornando-as sobretudo uma organização de pessoas confrontadas com situações emocionalmente intensas, tais como vida, doença e morte, as quais causam ansiedade e tensão física e mental.”

Diversos autores têm identificado agentes específicos de stress relacionados com reações adversas ao trabalho em ambiente hospitalar: sobrecarga de trabalho, insegurança do trabalho, ambiguidade de papéis, trabalho em domínios desconhecidos, servir uma população que vive ansiedade e medo, responsabilidade por outras pessoas, subaproveitamento das suas capacidades, recursos inadequados, mudanças tecnológicas, entre outros aspectos.

Dependendo da gravidade e da extensão de um acontecimento, torna-se impossível agir com a plenitude das condições necessárias vigentes. “Analisando-se sob o prisma da medicina, uma calamidade é caracterizada por uma situação aguda, súbita, abrupta, onde a demanda de recursos é insuficiente para garantir o apoio médico” (Donalisio 1995). Deve-se sempre levar em consideração a importância dos valores éticos, bioéticos e as soluções possíveis para o controle das variadas situações de conflito. (Wells et al, 2020)

A falta de competências psicológicas para lidar com tais exigências pode aumentar o stress do contato entre profissionais de saúde e pacientes. Esta questão é referida por médicos e profissionais de enfermagem como uma fonte de stress de grande relevância. O enfrentamento às situações de epidemia leva a uma reflexão sobre a importância da formação técnica e humanística do profissional de saúde tendo como base o compromisso ético com a sua profissão e a população.

O que estamos passando neste momento, com a pandemia da COVID – 19, sugere que negligenciamos a gestão, deixando os fundamentos e o aprendizado das crises, pelas quais já passamos, de lado e, com isso, deixamos de inovar nas possíveis soluções.

O mundo dava sinais de que já estava mais que na hora de refletir sobre o todo. Era preciso agir de forma mais estratégica, sustentável e transformadora, olhando todas as partes interessadas, analisando os processos e se preparando para adaptá-los, de forma proativa, com base nos aprendizados e nas realidades e tendências dos novos cenários, buscando resultados econômicos, sociais e ambientais de forma equilibrada.

Agora sim, chegou o momento de inovar, não nos modelos de negócios visando unicamente o lucro, mas na gestão, buscando alternativas de como sobreviver na escassez, de como distribuir o que existe, e de forma coletiva. 

As ferramentas de gestão estão disponíveis e são amplamente conhecidas. É uma questão de união de esforços, desprovidos de vaidades individuais e ideologias políticas, tirando proveito das lições aprendidas com humildade, sem buscar culpados, e partir para a ação. A única maneira de sairmos dessa situação é cada um assumir o seu papel de líder transformacional, todos engajados para uma causa maior – o bem-estar das pessoas.

Autores: Flora Seara, Lucianna Novaes, Michel Matos e Tatiana Melgaço.

Publicado em 23.03.2020

Assistência à saúde baseada em valor
Preparação para Emergências e Desastres

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