Processos Prioritários – Apoio a Segunda Vítima

Apoio à segunda vítima

O momento atual de pandemia tem imposto aos profissionais de saúde uma realidade que será difícil de ser esquecida: práticas assistenciais duvidosas e algumas vezes pouco efetivas. Não é uma simples decisão entre o medicamento A ou B, associar ou não ao uso de outras práticas; mas a dúvida constante em ofertar um cuidado ao paciente quase que experimental. A tomada de decisão à esta prática, imposta em momentos altamente críticos, por vezes traz resultados trágicos, cujo desfecho não pode ser medido, tanto para os profissionais de saúde quanto para os pacientes.

Desde a publicação “To err is human” é discutido que, resultados adversos podem ocorrer na prática assistencial. Os erros não são incomuns, e estudos trazem que esta prevalência pode chegar a mais de 10%, sendo a quarta causa de óbito em alguns países. Neste momento de crise, nos perguntamos, quais seriam estes números, frente à uma realidade desgastante, de uma doença desconhecida, recursos insuficientes, jornadas extensas de trabalho, o temor pela contaminação, equipes insuficientes, dentre outros fatores.

 Conhecer o verdadeiro impacto desta pandemia, querer entender a situação de pessoas precisando de recursos escassos ou já inexistentes, colaboradores exaustos e confusos e a situação de familiares e pessoas mais próximas será muito difícil, mas o que já se sabe é que a realidade vivida na saúde pós-pandemia não será a mesma. Este profissional, a “segunda-vítima” destes fatos, precisa de um olhar atento e cuidadoso, com um sistema de suporte efetivo para o enfrentamento das consequências das experiências vividas: trabalho emocionalmente estressante, convivência com mortes frequentes e inesperadas, contaminação e mortes de colegas de trabalho e práticas inseguras ou empíricas.

  “Segunda vítima” é um termo referente a um prestador de cuidados de saúde envolvido em um evento adverso imprevisto do paciente, erro médico e/ou uma lesão relacionada ao paciente; em que este torna-se vítima pelo trauma vivenciado. Frequentemente, as segundas vítimas se sentem pessoalmente responsáveis pelos resultados inesperados dos pacientes e possuem o sentimento de culpa como se tivessem falhado com seus pacientes, em suas habilidades clínicas ou base de conhecimento. Em seu conceito mais amplo, reconhece-se a aplicação deste termo para todos profissionais de saúde envolvidos em qualquer evento imprevisto que afete adversamente o paciente, mesmo que não seja decorrente de um erro.

Este fenômeno caracteriza-se pela baixa qualidade de vida, a presença de Burnout, altos níveis de depressão, exaustão emocional e baixa realização pessoal, com a percepção de incompetência profissional e insegurança. Reconhece-se o alto impacto para os pacientes e suas famílias a este evento, assim, promover apoio para esta primeira e segunda vítima é necessário para o favorecimento do aprendizado frente ao erro, além de prevenir futuras consequências.

 Uma reação comum após um evento é a fuga da situação, demonstrando o desinteresse em falar sobre o assunto; no entanto, o que ocorre é a vivência sequencial de situações semelhantes, o que não permite a estes profissionais o “esquecimento” destas situações. Há o constante contraponto entre o evento vivido e o seu papel em salvar vidas.

 Torna-se assim um evento devastador, cujas emoções podem variar, nos diferentes âmbitos: emocional, comportamental e cognitivo. A performance profissional é impactada, podendo até levar ao uso abusivo de substâncias (que requerem controle? Ilícitas? …).

 Não é incomum o estigma ao acesso à programas de saúde mental, distanciando estes profissionais de um possível caminho a ser seguido pós evento. O apoio de colegas de trabalho ou redes de apoio informal são altamente funcionais, promovendo um menor impacto e retorno saudável ao trabalho.

 Desta forma, é importante criar canais abertos à esta comunicação, a fim de prover escuta ativa, conforto e aconselhamento. É importante encorajar a fala, reconhecer a importância do incidente e não tentar minimizá-lo. Dividir estórias semelhantes entre profissionais que vivenciaram situações semelhantes pode auxiliar no reconhecimento do impacto do problema e promover a reafirmação e reabilitação profissional.

Este apoio à segunda vítima é fundamental neste momento pós-crise, para a reconstrução do ambiente de trabalho, de forma transparente, para uma nova cultura de segurança institucional a ser formada. Estes eventos ou erros são resultados de um sistema com múltiplos defeitos e vários níveis de falhas, não apenas resultados de ações individuais. Assim, é importante lembrar que a maior parte dos trabalhadores de saúde em algum momento vivenciou ou irá vivenciar um evento ou quase evento (“near miss”), o que demonstra a necessidade emergente de priorizar atividades de suporte organizacional.

 Para este suporte organizacional, é imprescindível reconhecer até que ponto o fenômeno da segunda vítima afetou estes profissionais, psicologicamente, fisicamente e profissionalmente; gerando uma consciência organizacional do problema. Ao ofertar apoio a esta segunda vítima, é necessário que as lideranças e a própria organização avaliem qual é a qualidade deste apoio, bem como o que aprenderam a partir desta vivência.

A construção de programas de apoio ou suporte implicam em tempo e custo organizacional, assim, acompanhar a sua implementação bem como os resultados ao longo do tempo é necessário para fundamentar e orientar novas ações. Para este programa, é necessário:

– Estabelecer metas claras;

– Ter o apoio da governança;

– Utilizar ferramenta para a obtenção de informações precisas dos profissionais, quanto ao impacto vivenciado e apoio necessário;

– Ter uma política estabelecida, que garanta os recursos necessários e como se dará a implantação do programa;

– Estabelecer papéis e responsabilidades dos líderes frente ao programa, garantindo o adequado encaminhamento;

– Garantir a confidencialidade dos envolvidos;

– Atenção aos apoiadores do programa, em seu processo de seleção e treinamento.

Uma multiplicidade de formas e métodos para o desenvolvimento de programas desta natureza é possível, no entanto, o primeiro passo necessário é o reconhecimento do problema. Espera-se após a pandemia consequências graves para profissionais e organizações. Não reconhecer estes impactos podem trazer consequências ainda maiores para a sustentabilidade das instituições bem como da sociedade. O enfrentamento pós COVID-19 impõe à sociedade atitudes nunca antes vividas, essenciais para a retomada de um novo momento desconhecido que precisa ser trabalhado de forma concreta e inovadora.

Referências

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