A Saúde da População no Pós Pandemia.

O mundo discute Qualidade e Segurança do Paciente há pelo menos 20 anos, com poucos resultados efetivos. Continuamos massacrando toda a equipe multiprofissional de assistência sobre a obrigatoriedade do cumprimento das políticas, diretrizes, protocolos e ferramentas na busca de melhores resultados, mas o que conseguimos alcançar com isso foi uma maior burocratização da assistência, o distanciamento afetivo do paciente e o cuidado centrado em resultados de desempenho e sustentabilidade apenas.

É urgente a quebra dos paradigmas vigentes de qualidade e segurança do paciente respondendo a uma simples pergunta: Por quê?

Na realidade, o caminho escolhido para a busca dos resultados foi errado. A fragmentação do sistema de saúde gerada ao longo desses 20 anos acabou piorando, ao invés de melhorar, os resultados de valor para o paciente.

É preciso reconhecer que o problema central está no Sistema de Saúde, por onde a população circula, e não nas ações isoladas das diversas organizações que compõem o sistema.

Utilizando um Hospital como ponto de partida, podemos assegurar com um elevado nível de acerto, que os resultados pífios vêm da falta de entendimento de quem é o paciente que dá entrada na Instituição. Obter informações precisas sobre a procedência desse paciente no sistema, qual a sua situação social em termos de vulnerabilidade, de que recursos e conhecimento ele dispõe para a promoção e manutenção da sua saúde, sua escolaridade e capacidade de entender seu papel nessa promoção e, principalmente, sua história pessoal em relação a hábitos, crenças, doenças previas, comorbidades atuais e genética é fundamental.

Não é possível construir nenhum plano de cuidados para um paciente específico avaliando apenas a sua condição ou necessidade clínica atual.

Programas internacionais de Acreditação, principalmente o canadense, já trazia todos esses requisitos desde o seu antigo programa do Conselho Canadense de Acreditação de Serviços de Saúde (CCAP-CCHSA). Mas, nem mesmo no Canadá esses requisitos foram totalmente compreendidos e implantados.

Aqui vale uma ressalva em relação a linguagem que os sistemas de Qualidade gostam de estabelecer, cheia de termos técnicos e nebulosos, de difícil compreensão para a população e para os colaboradores envolvidos na prestação de cuidados de saúde na linha de frente. Vale repensar esse jargão para que tenha uma maior penetração na construção da cultura de qualidade e segurança do paciente.

Novos fluxos precisam ser desenhados, com foco em um grande fortalecimento da etapa de admissão do paciente nessa estrutura, compreendendo uma fase pré-hospitalar (agendamento, informações clínicas relevantes), a recepção inicial (administrativa) e a admissão propriamente dita nos microssistemas clínicos (assistencial).

Ferramentas utilizadas para a priorização do atendimento, como os diversos sistemas de Classificação de Risco, são fundamentais para a gestão do acesso a demanda, mas exigem uma etapa subsequente de avaliação de enfermagem e/ou médico para o correto encaminhamento do paciente internamente.

Entender de onde o paciente vem e estabelecer as interfaces com as diversas organizações que compõem as atenções primária e secundária para a transferência segura de informações – seja em atendimento eletivo ou de urgência/emergência – é fundamental para a transição do cuidado e planejamento adequado desta etapa da jornada do paciente. Para isso, uma estrutura robusta de compartilhamento de informações entre todas as instituições que compõem o sistema de saúde a que esse paciente pertence, seja ele público ou provado, se torna obrigatório.

De posse dessas informações e da avaliação da situação atual do paciente, com certeza teremos uma utilização plena e eficiente de todas as ferramentas disponíveis de qualidade e segurança do paciente e uma efetividade clínica substancialmente maior, com menos agravos evitáveis.

E a desospitalização, a saída do paciente da instituição, precisa ser igualmente planejada desde a sua admissão, incluindo a educação do paciente, a gestão segura da informação e a transição oportuna e consistente do cuidado, com direcionamento adequado para a reabilitação e manutenção do seu estado alcançado de saúde.

Este foi apenas um exercício de reposicionamento dos hospitais dentro de sistemas de saúde. O fortalecimento das atenções primária e secundária de saúde devem diminuir a demanda de estruturas hospitalares em relação a hoje, propiciando uma assistência mais robusta e personalizada àqueles que necessitam dessa etapa da assistência secundária ou terciária.

Se ampliarmos esse redesenho para o Atendimento Ambulatorial, Home Care (Atenções Primária e Secundária) e demais estruturas de apoio ou assistência nos sistemas de saúde, estaremos dando, com certeza, passos precisos para a construção de resultados de valor para pacientes, profissionais de saúde, instituições e os próprios sistemas de saúde onde estão todos inseridos.

Dra. Elizabeth Reis

Coordenadora IQG das metodologias ONA e Distinções

São Lucas Cell Therapy Group – Saúde e Segurança em Tempos de Crise

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