O futuro do Sistema de Saúde

Em decorrência da catástrofe atual, proporcionada pela pandemia do coronavírus (Covid19), talvez estejamos no momento mais difícil de atuação da saúde em nosso país e no mundo. Até mesmo as opiniões de especialistas, infectologistas e sanitaristas mais renomados, diferem em relação às condutas de isolamento ou não, referente ao desenrolar do processo. Também em relação ao tratamento, há muitas controvérsias, mas de uma coisa temos certeza, são necessários vários estudos e ensaios clínicos antes da divulgação de como devemos tratar esses pacientes. É a partir deste aspecto que devemos nos pautar para o futuro.

A saúde exige investimentos e muito estudo. Vejamos o caso de nosso país. O desmembramento em saúde pública e privada, traz diferentes características em termos de acesso, atendimento e oportunidades de tratamento. Enquanto muito pouco é investido na saúde pública e as condições de atendimento em muitos locais são péssimas, sem a mínima capacidade resolutiva do problema, em outros privados, temos uma capacidade melhor até que em muitos centros americanos ou europeus.

Infelizmente, a Lista de Medicações (Rename) de Nosso Serviço Único de Saúde (SUS) é uma lástima. A falta de remédios em postos de saúde é uma constante, além de não contarmos com muitas drogas necessárias para o bom tratamento das pessoas. Consequência disso, muita judicialização da saúde para medicações.

Outro aspecto é a falta de carreira condizente a todos os profissionais de saúde, federais, estaduais e municipais. À semelhança do judiciário, médicos, enfermeiros e dentistas, deveriam ter o mínimo de estrutura para suas atividades e remunerações. Vejam o exemplo de São Paulo, a maior cidade do país e aquela cujo PIB é o maior de nossa federação. Não há reajuste de salário há anos, muito menos é reposta à inflação do período. É um descaso total com os profissionais da saúde. Por outro lado, quando analisamos o valor destas remunerações, não chegam há um décimo do valor de juízes ou magistrados, nos casos dos médicos. Isso sem contar a carga horária realizada pelos profissionais de saúde e resolutividade dos casos que é muito maior quando comparada a do judiciário.   

Também em relação à saúde privada, as remunerações continuam um descalabro e as autorizações para procedimentos muitas vezes negadas. Lógico que a mea culpa deve aqui ser elucidada. Há colegas que abusam de solicitações de materiais desnecessários e acrescentam códigos descabidos em procedimentos. Felizmente são poucos e acho que estão aprendendo após sofrerem várias negativas.

Independente disso, os valores de procedimentos cirúrgicos não são seguidos pelas operadoras de acordo com o estabelecido pela Associação Médica Brasileira (AMB) em relação à Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos (CBHPM). Cada plano de saúde paga o que quer para quem quer, e nada acontece. A Agência Nacional de Saúde (ANS), órgão regulador da saúde privada no Brasil, não interfere, ou quando o faz, logicamente beneficia o lado mais forte.

Do ponto de vista dos hospitais, a necessidade de estabelecermos protocolos para atendimentos e condutas, cada vez se faz mais necessária. Infelizmente, a formação de alguns profissionais de saúde hoje em dia é pífia, e não há, consequentemente, condutas adequadas por parte destes.  O número de faculdades de medicina é algo assustador. A liberação há alguns anos, para funcionamento de cursos que não têm nem hospital para campo de estágio, propedêutica e internato é um verdadeiro absurdo. Fora que, em muitas destas instituições não há sequer professores capacitados para o ensino, ou sequer carga horária para muitas especialidades. Aqui também em grande parte, culpa do Ministério da Educação que em mudanças curriculares descabidas destruiu em parte o curso médico.

O estabelecimento dos protocolos, baseados em estudos clínicos randomizados, controlados ou em diretrizes, padronizando condutas em relação não somente à profilaxia e tratamento, mas também relacionado a cuidados ambulatoriais e hospitalares devem ser cobrados dos profissionais de saúde.  A boa prática médica deve ser priorizada.

O que podemos e o que gostaríamos de esperar pós-pandemia. Há aqueles otimistas, como Paulo Martins, que acreditam de uma forma geral, que nossa sociedade em particular e o mundo em geral irão emergir mais conscientes de nossa fragilidade e isso nos encaminhará para um tipo de sociedade mais solidária, respeitosa e cidadã. O ser humano, quando em contato com o perigo, volta-se para seu interior e, ensimesmado, passa a refletir o quanto o outro lhe é importante e tem valor; e, nesse sentido, o quanto a alteridade precisa ser preservada. Por outro lado, como citado por Fabio Faversani, para parcela importante da população, as mortes serão fruto da medicina que fracassou e de uma ciência que não serve à sociedade, mas a propósitos obscuros. Não estranhem que a mesma população, que hoje clama por um remédio ou vacina, amanhã rejeite fortemente.  Ou não estranhem que as mesmas pessoas que hoje batem palmas por atuação dos profissionais da saúde, a meu ver uma grande hipocrisia de políticos, amanhã continuem virando as costas às necessidades da saúde pública ou mesmo privada, às necessidades de um ensino melhor e ao apoio às pesquisas científicas.

Referências:

Folha de são Paulo, 25 de abril de 2020, Tendências e Debates

Paulo Martins, professor livre docente de Letras Clássicas e vice-diretor da FFLCH-USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – Universidade de São Paulo)

Fábio Faversani, professor de História de Estudos Clássicos

Dr. Marcelo Calil Burihan

Presidente da SBACV/SP  2018 – 2019 

Diretor de Publicações da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV/SP)

ECMI – Abrão e Mendes Clínica de Medicina Interna

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