Desafios na gestão da cadeia de abastecimento no Brasil após a Covid-19

O Brasil assumiu recentemente a sétima posição no ranking mundial de óbitos decorrentes do novo coronavírus, superando oito mil mortes e mais de cem mil casos confirmados. O uso obrigatório de máscaras, a interdição de vias públicas e até o “lockdown” integram o pacote de medidas emergenciais adotado por Estados e Municípios em todo o País. Com tantas incertezas no presente em torno dos rumos da pandemia, refletir sobre o futuro após a Covid-19 se tornou um exercício ainda mais desafiador.

No setor de saúde, a gestão da cadeia de suprimentos médicos colocou em lados opostos autoridades governamentais, fornecedores e hospitais públicos e privados, sobretudo após a Lei Federal 13.979, que liberou ao Estado o “confisco” de bens e serviços das instituições privadas, afetando a estabilidade do livre-mercado, gerando disputas judiciais e reduzindo os estoques de fornecedores e hospitais.

Com menos — e mais caros — produtos hospitalares, cuja importação foi impactada também pela alta do dólar, a oferta não atendeu ao aumento exponencial da demanda e, em apenas uma semana, o preço de uma luva hospitalar, por exemplo, disparou 469%, conforme levantamento da plataforma digital Bionexo, que conecta milhares de hospitais e fornecedores no País. Diante dessa crise no abastecimento, há aprendizados que podem ajudar a agir de forma conjunta no presente e a pensar no futuro da cadeia de suprimentos.

É essencial explorarmos a tecnologia e sistemas de inteligência disponíveis para auxiliar no combate à pandemia. Desde o início da crise, alguns hospitais criaram estoques para assegurar a proteção dos profissionais que atuam na linha de frente e a continuidade do atendimento ao público. Ocorre que o cálculo desse estoque é realizado sobre a taxa de ocupação média regular de 70% a 95%, e não sobre a taxa atual de 35% a 55% (tomando por base os hospitais que integram a base de dados da Bionexo em São Paulo e Rio de Janeiro). Essa menor taxa de ocupação é reflexo da eliminação das cirurgias eletivas, por exemplo. Sendo assim, os centros hospitalares podem estar com estoques acima do necessário, deixando outras unidades desassistidas.

Por meio de um sistema inteligente de algoritmos seria possível no curto, médio e longo prazo não só detectar os hospitais públicos e privados com excesso de estoque, mas também mapear a quantidade de suprimentos necessária para cada hospital em certo período de tempo, remanejando os itens entre as unidades conforme urgência e disponibilidade. Dessa forma, os estoques poderiam ser usados de forma mais efetiva em favor da população.

Além disso, a pandemia evidenciou a necessidade de uma maior integração entre os atores políticos e econômicos que formam o setor de saúde no Brasil. A organização de uma coalização entre autoridades públicas, indústria e hospitais (privados, públicos e filantrópicos) poderia estabelecer uma banda de preço flexível em função de aumentos no valor do insumo e outros fatores, promovendo maior previsibilidade no valor dos produtos hospitalares e resguardando o setor de fatores externos como instabilidade do dólar e variações na demanda e oferta internacional.

A pandemia provocará efeitos duradouros em todos os setores da sociedade, sobretudo o hospitalar. Detectar os desafios atuais da cadeia de suprimentos, aprender com eles e elaborar políticas conjuntas de fortalecimento do setor no curto, médio e longo prazo é essencial não apenas para superar este momento de crise, mas também para se reinventar diante dos novos modelos de negócio que se aproximam no mundo pós Covid-19.

Maurício De Lazzari Barbosa

Fundador e presidente do Conselho da Bionexo

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