O Setor de Saúde tem Plano de Saúde?

“A história se repete, pelo menos duas vezes”, disse o filósofo alemão Friedrich Hegel. Apesar de controversa, a frase nos faz pensar em crises anteriores que tivemos na história mundial, e que podemos aprimorar estratégias utilizadas no passado ou em outros países e/ou circunstâncias para o reerguimento da economia.

A atual pandemia de coronavírus Covid-19 está deixando um rastro devastador na economia de diversos países. As medidas de contenção, grande número de doentes e mortes, a exposição de fragilidades das empresas e a incerteza de seu fim, impactam fortemente nos serviços e na cadeia produtiva, além de mudarem hábitos de consumo e colocarem empregos em risco. Muitos economistas cogitam uma crise financeira pior do que a que ocorreu em 2008 e outros, os mais fatalistas, uma depressão global. No início da crise, a população em geral pensava que o setor de saúde iria se beneficiar economicamente, entretanto, a realidade se mostrou contrária. Dia após dia as empresas estão ficando sem caixa. A realidade que se mostra é a seguinte: muitos hospitais tiveram queda relevante na sua taxa de ocupação e seus custos de diárias vem aumentando; clínicas de diagnósticos trabalham na sua maioria a 50% do volume esperado; bancos de sangues não tem doadores; clínicas de atendimento primário e secundários localizadas em shoppings estão fechadas; médicos não tem volume de intervenções eletivas. Ademais, o coronavírus tem acentuado e perpetuado a crise em muitos segmentos que já estavam com performance comprometida nos últimos anos. 

 As companhias em crises necessitam ser reestruturadas ou liquidadas, é o ciclo natural da vida de uma companhia. A reestruturação e a transformação corporativa, em sua mais pura forma, demanda um tripé de frentes de trabalho: reestruturação operacional, reestruturação financeira e reestruturação legal, sendo que essas frentes encontram uma sintonia no Brasil na Lei 11.101 de 2005, que dispõe sobre a recuperação judicial (RJ), recuperação extrajudicial e falência. 

Quando perguntamos se o setor de saúde tem plano de saúde, expressamos uma tácita provocação, visto que a resposta claramente é uma negativa. Resulta que a maioria do setor de saúde é composto por organizações sem fins lucrativos, fundações, cooperativas e planos de saúde, que não possuem direito a utilizar o mecanismo da lei de recuperação judicial. Outro ponto é que os mecanismos existentes para eles são pouco efetivos.

Isto é grave. Uma boa lei de RJ permite que as companhias operacionalmente viáveis se reestruturem em um ambiente seguro, dado que o marco legal as protege de ataques de credores e provoca um ambiente positivo e organizado de negociação entre as partes. Inclusive, dependendo da situação, existem ferramentas amplamente utilizadas principalmente no exterior que incrementam o grau de sobrevivência dos devedores. Por exemplo, verifica-se mundialmente que a maioria dos desfechos exitosos utilizaram o “Debt-to Equity” e o “Debtor In Possession financing”, dois mecanismos existentes, inclusive na lei brasileira. No primeiro caso, os credores aceitam diluir os acionistas atuais e assumir posição de novos acionistas da instituição como going concern em troca da dívida. Já no segundo, os credores que fornecem crédito para a instituição recebem prioridade sobre os demais credores permitindo a companhia investir num eficiente plano de transformação operacional.

Em definitiva, o Covid-19 está causando um enorme impacto na população. Além das mudanças culturais, o mundo pós-covid enfrentará uma grave crise financeira. O setor de saúde como um todo necessita entender que é importante, além de atuar organizadamente do ponto de vista assistencial para o combate da doença, unir forças de uma forma organizada e pragmática para provocar uma mudança radical nos mecanismos de reestruturação de empresas de saúde. Isto permitirá que as instituições não só sobrevivam, mas também saiam mais robustas para continuarem focadas nas suas visões e missões.

Gonzalo Grillo

Managing Director  Alvarez & Marsal Brasil

Publicações similares

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Preencha esse campo
Preencha esse campo
Digite um endereço de e-mail válido.
Você precisa concordar com os termos para prosseguir

Menu