Desafios, oportunidades e responsabilidades das empresas de saúde na era pós pandemia

Apesar de todas as incertezas deste momento, há uma certeza inegável: a pandemia mudou e vai mudar fundamentalmente o setor da saúde e como estas empresas são administradas. O “novo normal” trará novos desafios e, juntamente com ele, novas oportunidades e responsabilidades.

A expansão de serviços de saúde, ocorrido em maior intensidade nas últimas duas décadas, produziu uma oferta desordenada, desintegrada e frágil entre os serviços, e que agora na pandemia pela COVID-19 tornou- se ainda mais evidente. Neste cenário, temos ainda um financiamento baseado em pagamento por serviço executado e o  preparo inadequado das instituições para atender a demanda oriunda da forte transição demográfica que vivemos. Muitos modelos de gestão até então vigentes, focados na produtividade, já não respondem às expectativas do mercado e principalmente do usuário.

Esta crise mostrou que precisamos mudar a velocidade para solucionar os problemas que nos preocupavam antes da COVID-19 – número insuficiente de profissionais, orçamentos inadequados, sistemas de informação e de gestão ineficientes e estruturas organizacionais fracas.

O Acesso aos Recursos de Saúde

Não precisamos mais defender investimentos em saúde, todos os países aprenderam a dura lição de que uma pandemia pode destruir a economia global e custar trilhões. Investir em prevenção e promoção da saúde é investir na economia.

A saúde pública nunca foi um campo de grande interesse, mas, após a COVID-19, talvez não precisemos vender a saúde pública. A pandemia enfatizou a importância crítica dos determinantes sociais da saúde e a necessidade em investimentos sociais.

Além disso, não precisamos mais justificar porque a solidariedade e a colaboração são fundamentais para manter o mundo saudável e seguro. No entanto, a distribuição de recursos de saúde atualmente não leva em consideração o contexto social e as necessidades reais da população ao qual está se empregando tecnologias.

Menos tolerância para recursos desperdiçados

A pandemia exige respostas e ações rápidas. Somos forçados a aprender rapidamente sobre o que melhor funciona. Algumas respostas à pandemia serão mais eficazes do que outras. Conhecer quais partes de nossa burocracia respondem com mais eficácia, para que possamos apoiá-las no futuro, será um aprendizado. Também é essencial aprender a melhor usar dados, evidências e tecnologia para melhorar nossa capacidade de reagir a crises. Gastos ineficientes e desnecessários serão ainda mais visíveis durante esta crise. Essa pandemia nos forçará a articular o que é mais importante e a priorizar os investimentos.

Além disso, como outras empresas, os sistemas de saúde precisarão ajustar as atividades das equipes e reconfigurar seus espaços administrativos e não clínicos (de mesas de registro a salas de espera e lanchonetes) para garantir a segurança dos pacientes e funcionários. Eles precisarão otimizar operações clínicas e cadeias de suprimentos para permitir maior flexibilidade e capacidade em caso de picos localizados dos casos de COVID-19. O equilíbrio entre pessoal clínico e não clínico precisará ser ajustado para refletir a baixa produtividade e a necessidade de aprimorar a eficiência operacional.

As referências estratégicas utilizadas para este “novo momento” deverá focar nos resultados de análise do mercado e empresa, no propósito da organização, obedecendo princípios e valores, sua viabilidade de acordo com os recursos disponibilizados e a promoção no envolvimento e compromisso com as pessoas. Nunca o capital humano foi tão importante e ao mesmo tempo tão negligenciado por políticas institucionais que promovessem melhor aproveitamento da força de trabalho e consequentemente melhor distribuição de recursos.

Mais flexibilidade e maior integração

Veremos uma atenção renovada e o posicionamento da saúde na agenda política e à medida que as pessoas se tornarem mais conscientes do papel dos governos na saúde, será muito difícil reverter as medidas positivas adotadas. Neste momento, a grande maioria das pessoas não tem acesso a cuidado de saúde de qualidade.

Esta crise está oferecendo a oportunidade para transformar as relações entre setor público e privado, academia, parceiros locais da sociedade e a comunidade para promover a colaboração e criar a resiliência necessária para responder e prevenir futuras crises.

Para resolver esses problemas de maneira eficaz, as organizações precisarão aumentar a cooperação em toda a infraestrutura de assistência.

Os serviços de saúde, mais do que as empresas de outros setores, já vinham enfrentando pressões financeiras de longo prazo, incluindo a perda de receita e mudanças no mix da receita. Agora, terão que se reinventar na forma como conduzem os negócios para operar sob novas restrições, restabelecer a confiança do consumidor, tratar os usuários quando realmente precisarem de cuidados e, por fim, manter a saúde da população que atendem. Infelizmente, eles não têm o luxo do tempo. Todo dia e semana que passa significa mais instabilidade financeira e atrasos.

Os serviços de saúde terão que identificar maneiras de se diferenciar para obter vantagens competitivas, como por meio de atendimento digital e virtual superior.

Após a pandemia, esperamos que a saúde seja caracterizada pelo acesso à informação e a cuidados seguros e de qualidade para todos.

A comunicação mudará para sempre

O setor saúde terá que se adaptar a um novo ecossistema e encontrar maneiras de se tornar mais ágil e ampliar o acesso.

Tornar tudo virtual exigirá maneiras inovadoras de envolver os clientes.

A maneira como as empresas se comunicam diretamente com os usuários também deve mudar. Materiais como folhetos de salas de espera deverão ser adaptados ao novo ambiente virtual. Maneiras inovadoras de transmitir claramente e online informações de saúde baseadas em evidências terão que ser desenvolvidas. Será preciso encontrar canais para comunicar aos usuários o que realmente é necessário para manter sua saúde.

Ser uma empresa digital, deixará de ser uma opção ou uma futura ação (“ainda não é o momento, diziam muitos executivos…) para ser a base operacional da empresa. O presencial não morre, mas deixa de ser obrigação. A tecnologia vai permitir que o sistema de saúde seja muito mais ágil e adaptável do que é hoje. O modelo atual é baseado em deslocamentos físicos para consultórios, clínicas e hospitais, não deixaremos de ter médicos e hospitais, mas com uso de tecnologias, o setor poderá ser muito mais abrangente. Com isso, as legislações e os processos organizacionais e de gestão vão mudar.

O conhecimento passa a ser uma ferramenta competitiva com a maior integração tecnológica. O acesso à cada vez mais conteúdos e interação virtual permitem que as discussões clínicas com os usuários transcendam a antiga e submissa relação médico-paciente.

A sociedade não será mais a mesma

A pandemia provocou e ainda provocará mudanças profundas no comportamento, nos valores e crenças das pessoas. A solidariedade ressurge em oposição ao individualismo vigente antes da COVID-19. A família recupera seu papel de importância na vida de cada um. Parcerias se fortalecem. E o conhecimento, muito mais acessível, permitirá um crescimento substancial em cidadania e preservação do meio ambiente. O autocuidado fará parte da vida das pessoas. O acesso a saúde será um direito mais do que exigido. Tanto os usuários, quanto os profissionais da área da saúde, terão novas necessidades e expectativas.

Foco renovado em saúde pública e autocuidado

Após a pandemia haverá uma ênfase renovada na saúde pública. Enquanto os hospitais permanecem sobrecarregados com o cuidado da COVID-19, com procedimentos eletivos sendo cancelados, a importância do autocuidado aumentará e mais pessoas questionarão o que deve ser considerado essencial.

Os governos terão que implantar programas públicos de promoção de saúde que visam atender a população de forma mais igualitária. Por trás dessa igualdade, está o princípio humanista de que a vida de todos tem o mesmo valor.

Os profissionais de saúde, assim como os pacientes deverão ser mais críticos ao solicitar e realizar exames e procedimentos eletivos. O risco de contaminação atual deverá ser levado mais sério por toda a cadeia produtiva em saúde, inclusive usuários, e considerado no momento de se decidir pela realização de um procedimento não essencial.

Transformar o sistema, tornando permanentes as reformas que a pandemia forçou.

Se a pandemia mudará a maneira como o sistema de saúde vem sendo gerenciado é uma questão ainda em aberto.

Como será o futuro da higiene, por exemplo, que tem sido um esforço contra o coronavírus. A higiene é uma área que provavelmente será profundamente redesenhada por esta crise. Isso alterou a vida de todos. Haverá maior frequência de limpeza  das superfícies compartilhadas,  teremos restrições sobre o número de pessoas que poderão se aglomerar em um elevador, Uber, ônibus e os aviões irão calcular a média das limpezas profundas que fazem.

Antes da COVID-19, o CDC registrou e publicou que: “em média, os profissionais de saúde lavam as mãos menos da metade das vezes que deveriam, apesar dos esforços persistentes e focados na qualidade para melhorar esse número. Fora dos hospitais, pesquisas sugerem que a higiene das mãos também é surpreendentemente ruim. Dez por cento das pessoas não lavam as mãos depois de usar o banheiro. Outro quarto não usa sabão”.

Vamos considerar a Inteligência Artificial e a transformação digital. Esta crise rompeu as barreiras da regulamentação e da remuneração através de decisões temporais. Embora alguns campeões estejam ansiosos, se não desesperados, em invocar a pandemia como o evento transformador que levará o digital à medicina, muitos estão menos convencidos. Outros, no entanto, ainda esperam que, apesar de um começo bastante difícil, essa seja a melhor hora da tecnologia.

“Membro do conselho e cientista-chefe da Microsoft, Dr. Eric Hovitz, descreveu como um tiro na lua. É necessário otimismo sobre o potencial dos dados e da IA ​​para beneficiar a medicina a longo prazo. Mas descobrir isso não será tão fácil quanto esperam alguns otimistas. A necessidade de um alto volume de dados relevantes e de alta qualidade complicará as coisas”.

Outra questão importante está ligada as regulamentações legais: como equilibrar os benefícios potenciais das tecnologias virtuais a invasão da privacidade. As tecnologias emergentes no cenário da saúde estão vigilantes as normas legais de segurança digital?

Precisamos enfatizar que neste momento, saúde versus privacidade não é uma escolha e devemos garantir que as ferramentas digitais que usamos tenham disposições robustas de governança de dados desde o início, caso contrário, os direitos que renunciarmos durante esta crise podem ser impossíveis de recuperar depois que tudo terminar.

O tempo se esgotou, as decisões que tomarmos agora vão moldar o futuro do sistema de saúde, e só podemos tomá-las com base na visão atual do mundo. Se agora não tivermos uma visão abrangente do todo mundo o futuro será decido aleatoriamente.

Ninguém pode prever as mudanças especificas que vamos testemunhar. É provável que qualquer cenário planejado agora esteja longe da verdade.

Ainda não sabemos todas as respostas. O que sabemos é que os tomadores de decisões terão agora que redesenhar da estratégia a assistência à saúde. O próximo “normal” não será nada parecido com o que deixamos para trás.

Como diz o ditado, “você não pode colocar o gênio de volta na garrafa”.

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