A Guerra de cada um

Vivi na Alemanha há duas décadas e uma reflexão passou a me acompanhar desde então: como terá sido o dia seguinte do alemão, aquele que não pôde emigrar, com sua cidade – digamos Colônia – completamente destruída?  Essa reflexão tornava-se tanto mais forte, quanto mais eu a via, cerca de 50 anos depois, completamente reconstruída e pujante.

Temos que enfrentar o covid-19, ainda que sem toda estrutura e conhecimento.  Temos que aprender a viver um dia de cada vez, de forma incremental.  A cada novo fato relevante, mudaremos nossa abordagem, pois não existe solução milagrosa ainda.  Felizmente!

Se o curto prazo nos está imposto, por razões de sobrevivência ao coronavírus, como faremos com o médio/longo prazo, após uma descontinuidade sem precedentes como essa?  Estamos num ponto de ruptura, que trás para o centro das atenções o tal novo normal, carregado de dúvidas, riscos (medos) e oportunidades (esperanças).

Como disse Peter Drucker- “Não podemos prever o futuro, mas podemos criá-lo” – é hora de grandes líderes elegerem um rol de temas convergentes, muitos deles à espreita há algum tempo, mas carentes de impulso para serem colocados em prática.  No nosso setor de saúde, temas críticos precisam ser trazidos à frente, tais como: 

– conceito renovado de segurança assistencial;

– indústria nacional de itens críticos;

– novas ferramentas de comunicação – o virtual virando real?;

– padrão de consumo repensado – existe eletivo em saúde?;

– modelo de negócio mais equilibrado, enfim.

Especificamente no nosso país, vivemos uma crise que expõe a luta entre o público e o privado.  E vem de todo lado – direita ou esquerda.  Numa crise como essa, questões ideológicas têm menos relevância do que os apontamentos da ciência.  Numa crise como essa, não há espaço para pautas oportunistas, que aprofundem ainda mais as dificuldades fiscais que vivemos.  Nesse contexto, ressalto o  trabalho do setor  de saúde suplementar, que tem demonstrado sua grande capacidade de reação e também a disposição de apoiar o setor público, ajudando-o na coordenação e montagem do arsenal  de combate à epidemia.

Finalizando, penso que não devemos perder a chance de olhar para as nossas ineficiências e incapacidades.  Temos que nos deixar inspirar, de uma vez por todas, por diversos povos que passaram por grandes tragédias – naturais ou guerras – e que tiveram que refazer corajosamente sua lista de prioridades, com vistas à reconstrução de um sonho, não esperando por milagres e nem buscando atalhos.  Precisamos olhar de frente para a educação prática, para os cuidados preventivos de saúde e para a área de novas tecnologias, que possam alçar nosso país ao posto de player relevante nesse novo mundo, onde as distâncias praticamente foram obliteradas pela comunicação na velocidade da luz.

Paulo Barreto

Diretor Executivo do Hospital São Lucas – SE

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