O Futuro da saúde do Brasil pós Covid-19

O mundo passa por uma crise sem precedentes. No dia em que estou escrevendo este artigo, órgãos internacionais registram 4,8 milhões de pessoas contaminadas e mais de 319 mil mortos. Um índice de 6,6% de mortalidade, muito próximo ao que vemos no brasil: 6,7% no octogésimo segundo dia de contaminação.

O Brasil precisou correr contra o tempo e se preparar para enfrentar este inimigo invisível que afeta diretamente as pessoas e consequentemente nossa economia, visto que uma das medidas fundamentais para sua contenção é o isolamento social, e em um país que ainda se recuperava de uma crise recente, este golpe é daqueles extremamente duros de suportar. A crise que enfrentamos hoje é pior que a de 2008, onde vimos um crescimento em torno de 5% do PIB, visto que para este ano a previsão é justamente o oposto: retração em 5%.

Desta forma, a pergunta que fica hoje é: qual será o futuro do Brasil pós COVID-19? Para tentar responder, separei 5 temas que o São Cristóvão Saúde já vem trabalhando e que agora, mais do que nunca, precisará se reinventar para continuar em movimento: 1) pessoas: gestão, capacitação e papel da liderança; 2) relações com mercado: médicos, usuários, empresas e operadoras; 3) gestão da informação e núcleos de inteligência; 4) cadeia de abastecimento e 5) Capacidade financeira.

Em um futuro que passará certamente por uma disrupção, gerir e capacitar pessoas terá um papel ainda mais desafiador. O distanciamento que hoje é uma realidade, poderá se manter parcialmente, visto que diversas empresas estão adotando home office como padrão na tentativa de enxugar custos e aumentar a qualidade de vida de seus colaboradores. Isso demandará líderes ainda mais presentes, o que pode não ser nada fácil neste contexto. A capacitação das pessoas tende a ser um processo ainda mais conectado, ágil e focado. A despeito desta nova geração ser cada vez mais imediatista e buscar por seus próprios conhecimentos, no mundo da saúde é extremamente necessária a capacitação específica em temas que sejam de fundamental importância no “servir” o cliente e na garantia da melhor assistência, ainda mais pela grande possibilidade de novas ondas de contaminação e apresentações diferentes deste e outros vírus.

Neste contexto, a experiência do cliente também sofrerá mudanças significativas, visto que em um futuro próximo é muito provável que as pessoas mudem seus hábitos de busca pela saúde. Na Alemanha, por exemplo, os hospitais ainda sentem uma baixa demanda, mesmo com o alto controle de novos casos e diminuição da curva de contaminação. Sendo assim, será necessária uma adaptação na relação entre os players do mercado a fim de garantir a sustentabilidade da cadeia. O uso intensivo de tecnologias também é importante neste processo.

As mudanças regulatórias também são tema de preocupação para os gestores no mundo. Uma pesquisa feita pela consulta global Protivit, com 1.063 executivos, apontam que o tema está acima até da preocupação com as condições econômicas para crescimento das empresas, pois pode afetar a criação e entrega de serviços aos clientes. Aqui no Brasil, acompanhamos a consolidação de serviços ora questionados, como telemedicina e aumento dos canais de vendas online, a dilação de prazos pela ANS e movimentação para aumento de liquidez das empresas, a prorrogação de reajustes nos setores farmacêuticos. Somados, esses fatores podem influenciar para aproximar a empresa do cliente, entregar valor nos serviços prestados, criar novos players e suportar a disrupção de modelos de negócio.

Será fundamental para este processo que os entes da saúde conheçam cada vez mais seus usuários. Parte disso é a correta e segura gestão da informação, somada ao fortalecimento de núcleos de inteligência. Em um momento de fortes discussões de LGPD, saber quais informações possuir, como, com quais níveis de segurança e mais importante: saber usar os dados transformando-os em informações assertivas e que suportem tomadas de decisão rápidas e precisas é crucial. Empresas que possuírem tecnologias e processos que permitam isso serão as que possuirão maior chance de adaptação e retorno de crescimento.

Outro tema de destaque no futuro é a cadeia de abastecimento e gestão de suprimentos. Hoje os hospitais foram “obrigados” a trocar o modelo just in time pelo just in case, porém no futuro todo o processo terá que ser transformado, especialmente quando lembramos que a Gestão de Estoques tem relação direta com os resultados financeiros de um negócio. Isso passa por uma logística mais eficiente, revisão de margens de fabricantes e distribuidores e revisão do modelo de armazenamento.

Todos estes temas culminam na capacidade financeira. O ponto é que, no Brasil, como já citado neste artigo, o futuro próximo não demonstra ser promissor. Segundo o SEBRAE, PMEs e MEIs serão fortemente impactadas, refletindo em toda nossa economia. PMEs representam 52% dos empregos com carteira assinada no setor privado; 40,7% das MEIs, que também possuem grande representatividade, tiveram suas atividades econômicas interrompidas. Isto somado ao fato de que 68% delas não possuem previsão de caixa para o mês seguinte já demonstra o cenário do país. A estimativa é que a população desocupada suba de 11,9 milhões para 25 milhões, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho. Empresas maduras deveriam estabelecer comitês de gestão de crise, revisar seus custos e revisar a fonte de sua receita. Talvez a pergunta chave seja como garantir fontes alternativas de receita ou trabalhar as fontes atuais de forma a se reinventar e sustentar o negócio.

O futuro do Brasil tem diversas incertezas e apenas uma certeza: pessoas ainda serão o centro de tudo. A forma de relacionamento com o cliente fortemente conectado poderá ser a diferença entre a estabilização e sustentação do negócio ou o encerramento de sua operação. Devemos estar preparados para o novo normal contemplando um novo nível de flexibilidade dos negócios.

Dr. Valdir Ventura

CEO do Grupo São Cristóvão Saúde

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